Um livro é um livro é um livro
Quatro Cinco Um
O mundo é redondo, Gertrude Stein – Trad. Luci Colin e Dirce Waltrick do Amarante
Editora Iluminuras, 2020
Em 1939, quando foi publicada a primeira edição do livro O mundo é redondo, de Gertrude Stein, a editora Young Scott Books advertiu: se os leitores tiverem dificuldade para acompanhar o texto, devem lê-lo mais rapidamente; e, se ainda assim tiverem dificuldade, devem lê-lo mais rapidamente ainda. Eu experimentei e posso dizer que é mesmo verdade: ler mais rapidamente, no caso desse livro, é um jeito de entendê-lo melhor. Talvez porque esse seja um texto que corre na mesma velocidade com que os pensamentos correm dentro da cabeça — principalmente quando é a cabeça de quem costuma pensar sobre tudo.
Se você ficou na dúvida, experimente também: “Uma vez o mundo era redondo e você podia dar voltas e voltas ao redor dele. Por todo lado havia um lado e por todo lado lá havia homens mulheres crianças cachorros vacas porcos selvagens coelhinhos lagartos e animais. Era assim que era. E todo mundo cachorros gatos ovelhas coelhos e lagartos e crianças todos queriam contar para todo mundo tudo sobre essas coisas e eles queriam contar tudo sobre eles mesmos. E então havia a Rosa”.
ilustrações de Clement Hurd
ilustrações de Clement Hurd
para a primeira edição do livro
para a primeira edição do livro
de 1939
de 1939
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Leitor é cúmplice de um futuro terrível em livro que narra férias de verão que antecedem o Holocausto
Folha de S. Paulo
Meu pai, minha mãe, Aharon Appelfeld – Trad. Luis S. Krausz
Editora Carambaia, 2019
Também por ter perdido as suas línguas de origem, esse é um autor que escreve com um sotaque eternamente estrangeiro —como se o próprio texto em hebraico já fosse a tradução de uma língua e de um tempo que não existem mais. Ele volta para quando os boatos corriam na beira do rio, entre judeus que não imaginavam o que seria a guerra que viria.
Para uma criança, esses “rumores e temores” não significavam muito além de uma ameaça abstrata e assustadora. Mas, nas lembranças antigas, ainda mais quando separadas do presente por uma ruptura como essa, os adultos também soam como crianças em suas afirmações categóricas, sua ignorância sobre o ponto em que se encontram no tempo.
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Verdades vestidas de mentira
Quatro Cinco Um
Contos maravilhosos infantis e domésticos (1812-1815)
Grimm, Jacob & Grimm, Wilhelm – Editora 34
Vidas de Esopo — O Romance de Esopo em traduções e ensaios
Editora Humanitas
A tradição da fábula: de Esopo a La Fontaine
Editora Unesp
O que essas centenas de historietas têm em comum, além do fato de se passarem no “tempo da áurea”, quando “também os demais viventes/ voz articulada possuíam”, como diz Bábrio, é a forma particular que elas encontram para dizer uma verdade: “Fábula (mythos) é uma fala (logos) ficcional que retrata uma verdade”, diz Teón de Alexandria. Modismo na Grécia do século 5 a.C., as fábulas funcionavam como um recurso dos oradores para cativar seu público — para que eles pudessem dizer o que queriam sem ofender nem implicar diretamente ninguém. Porque parte do trabalho retórico de convencimento é encontrar roupas novas para fantasiar coisas velhas: não necessariamente mentir, mas revestir com cores diferentes as verdades com as quais ninguém mais se importa, ou que ninguém mais vê. Um trabalhador esforçado, assim, ganha a roupagem de formiga; o bon vivant, a de cigarra.
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Abbas Kiarostami nos empresta outros olhos em seu livro de poesia
Folha de S.Paulo
Nuvens de algodão, Abbas Kiarostami – Trad. Pedro Fonseca
Editora Ayinê, 2018
“Em persa temos um ditado que afirma, quando alguém olha algo com verdadeira intensidade: ‘Tinha dois olhos e pediu mais dois emprestados’. Estes dois olhos tomados de empréstimo são aquilo que quero capturar” —é o que uma vez escreveu o iraniano Abbas Kiarostami sobre a própria obra.
Todo o seu trabalho, seja como cineasta, fotógrafo ou poeta, é atravessado pelo desejo de captar esses olhos secretos: aguçar a percepção, enxergar na imagem o que está antes, depois ou atrás dela.
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Em 'Benito Cereno', Herman Melville revela o que não queremos ver
Folha de S.Paulo
Benito Cereno, Herman Melville – Trad. Bruno Gambarotto
Editora Grua, 2018

“Benito Cereno” é um livro de muitos níveis. Faz sentido, assim, que essa seja uma história que se passa no meio do mar: se o que se revela na superfície esconde outras camadas, um bom navegante está atento e observa os sinais aparentemente insignificantes. 
Quem comanda um navio deve saber interpretar aquilo que indica mudanças na direção do vento ou tempestades se aproximando.
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Edição de contos aproxima o leitor dos mistérios do assombro
Folha de S.Paulo
Contos de assombro, vários autores
Editora Carambaia, 2018
Tudo do que a gente duvida da existência acaba por ganhar mais formas de existir. O diabo, por exemplo, pode surgir por aí cheio de disfarces: travestido no corpo de um homem respeitável; muito alto, com olhos admiráveis; na aparência de um lenhador, no meio do pântano; ou então como um ser repugnante, entediado e de ombros peludos.
Acontece até mesmo de o diabo não ser chamado por seus nomes mais conhecidos, nem ser tão maligno quanto imaginamos: um "Espírito da Vida" que aparece para mostrar o que acontece após a morte.
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'A Balada do Cálamo' é uma espécie de autobiografia em construção
Folha de S.Paulo
A Balada do Cálamo, Atiq Rahimi – Trad. Leila de Aguiar Costa
Estação Liberdade, 2018

Conta-se que há muito tempo, na Turquia, um homem anunciou que venderia o Livro da Sabedoria por cem peças de ouro, e que alguns achariam barato. Ao que Yunus Emré, conhecido mestre sufi, respondeu: "E eu darei a chave para entendê-lo, e quase ninguém a aceitará, mesmo de graça".
Essa pequena história não está no livro "A Balada do Cálamo", do afegão exilado na França Atiq Rahimi. Mas o autor, em suas referências que transitam da antiga poesia persa a escritores europeus contemporâneos, persegue justamente essa chave do conhecimento profundo —que, até se for oferecida de graça, sabemos ser uma das coisas mais difíceis de se localizar.
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Pequenino alvoroço
Quatro Cinco Um
O inferno é verde, Leslie Kaplan – Trad. Zéfere
Luna Parque, 2018
Hotel Península Fernandes. Sempre que Manuel Bandeira via esse nome escrito numa tabuleta “sentia não sei que pequenino alvoroço”. Seu primo tomou a iniciativa de perguntar ao proprietário o motivo dessa estranha escolha. O homem, um português “sem nenhuma fumaça de literatura”, respondeu: “Muito simples. Fernandes porque é meu nome, e P’nínsula porque é bonito!”. Bandeira, que conta essa anedota para falar da força inapreendida da poesia, encontrou uma explicação para o nome do hotel, mas não para a emoção que sentia sempre que via a inscrição: essa permaneceu misteriosa. 
“O inferno é verde.” A franco-americana Leslie Kaplan inicia os versos de seu livro com a chegada ao Recife e essa frase que ela viu em um muro. O que o grafite despertou na poeta é da ordem do pequenino alvoroço descrito por Bandeira: com essa combinação de palavras, uma maquininha adormecida é ativada e começa a girar para criar um poema.